EGO, O FALSO CENTRO – OSHO

20 de jan de 2011



Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu
. E quando uma criança nasce, a 1ª coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a 1ª coisa da qual ela se torna consciente é o outro. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento e o desenvolvimento da primeira infância é isso.
Nascimento significa vir a esse mundo para tomar consciência do mundo exterior. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce neste mundo e para este mundo. Quando ela abre os olhos e vê os outros e quando percebe o outro este passa a significar o tu.
Ela 1º se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Esse também é o ‘outro’, pois também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o próprio corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo. É dessa maneira que a criança cresce, sentindo e percebendo.
Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com o você, com o tu, ela se torna consciente de si mesma por oposição.

Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que ela pensa a seu respeito. Se a mãe sorri, se a mãe aprecia a criança, se diz ‘você é bonita’ e, se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Assim, um ego começa a nascer.

Através da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que ela é boa, pois ela sente que tem valor, ela sente que tem importância para os outros. Um centro de conscientização está nascendo, mas esse centro é um centro refletido. Ele não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensam a seu respeito.

E esse é o ego: o reflexo das relações do indivíduo com o meio ambiente e, aquilo do que os outros pensam.

Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, nasce – um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida, sentindo-se inferior e, sem valor. Isso também é ego. Isso também é fruto de um reflexo.

A mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas.

Assim sendo, o ego é um fenômeno cumulativo, um subproduto do viver com os outros.

Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não.

O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, que está psicologicamente atuante com você, mas não é você. Tudo, menos você, é a sociedade. O verdadeiro Eu só pode ser conhecido através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele que é uma disciplina. O verdadeiro Eu só pode ser conhecido através da ilusão do Ego que foi criada pelo mundo. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que perceber o que é falso. Através dessa percepção, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade se evidenciará em você.
Todos refletem estímulos. Você irá à escola e o professor refletirá quem você é para ele. Você fará amizade com as outras crianças e elas refletirão quem você é para cada uma delas. Pouco a pouco, todos estarão adicionando algo ao seu ego, e todos estarão tentando modificá-lo de algum modo. Os dirigentes da sociedade atuam para que você não se torne um problema para a mesma sociedade. Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados no seu relacionamento com a sociedade. A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Eles não estão interessados no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhes que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão. Quem não se ajusta aos padrões de uma sociedade pode ser banido, preso, ou, morto. Assim, pais, mestres, e os elementos de repressão estão interessados em dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade, mas a Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro. Não significa que esteja errado, apenas significa que está desajustado em relação a padrões e valores locais, ou, continentais. Se quiser continuar a viver em determinado meio social, deve se ajustar e evitar equívocos. Caso contrário, abandone esse meio social. Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade. Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social ajustada às circunstâncias de momento. É como diplomacia que ajusta relacionamentos entre países. Toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade e, isso é tudo porque a sociedade está interessada em membros eficientes no ponto de vista dela. A sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao auto-conhecimento no sentido de conhecer o Eu mais profundo. Nem os Sistemas Organizados como Religião desejam isso. Todos desejam voce ajustado e contribuinte.
A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O Ego é formado à base de informações e crenças limitantes. O Eu desperto nunca pode ser controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando um Eu esperto. Não é possivel porque o Eu não está sujeito à crenças limitantes.

A criança necessita de um centro de consciência, mas a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro de consciência pelos condicionamentos e a criança pouco a pouco fica convencida de que esse é o seu centro de consciência, mas esse é o Ego dado pela sociedade. Se uma criança volta para casa depois das aulas e se ela foi o 1º lugar de sua classe, a família inteira fica feliz. É beijada, colocada sobre os ombros e você começa a dançar dizendo ‘que linda criança! você é um motivo de orgulho para nós.’ Se você faz isso você está dando um ego para ela, um ego sutil.

Se a criança chega em casa abatida, fracassada, foi um fiasco na classe e ela não passou de ano ou tirou o último lugar, então ninguém a aprecia e a criança se sente rejeitada. Ela poderá tentar ser melhor com mais afinco na próxima vez, porque o Centro de Consciência se sente abalado.

O ego pode estar sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. E é por isso que você está continuamente pedindo atenção. Se não recebe atenção positiva e a vontade de vencer for fraca, o Ego pode ser deprimido, mas caso contrário pode se tornar agressivo intelectualmente e até fisicamente.

Você obtém dos outros a idéia de quem eles acham que você é. Não é uma experiência direta, mas reflexa. Se os padrões assumidos pela sociedade forem função de crenças limitantes, você poderá ser considerado rebelde.
É dos outros que você obtém a idéia de quem você é em relação aos padrões deles. Eles modelam o seu centro de consciência egóico, ou, pelo menos tentam modelar. Mas esse centro de consciência egóico é falso, enquanto que o centro de consciência verdadeiro, o seu Eu, está dentro de você. O centro de consciência verdadeiro, o Eu, não é percebido por ninguém e, ninguém o modela. Você vem com ele. Você nasce com ele. Ele é dom de Deus.

Assim, você tem 2 centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Esse é o Eu. E o outro centro, que é criado pela sociedade – o Ego. Esse é algo falso – é um grande truque. Através do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de "uma certa maneira", porque somente assim a sociedade irá apreciá-lo. Você tem que caminhar de uma certa maneira; você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente assim a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego poderá ficar abalado. Se o seu ego fica abalado, você já não sabe onde está, você já não sabe quem você é, mas se o seu Eu é forte e o seu Ego é fruto da interação com o seu Eu, há Autoconfiança.

Os outros deram-lhe idéias, informações e crenças limitantes e, essas idéias se aceitas, são o seu Ego. Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a não ser que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o Eu. Por você estar viciado no seu falso centro de consciência, você pode estar limitado, e você não pode olhar para o Eu.

Lembre-se: vai haver um período intermediário, um intervalo, é quando o ego estará se despedaçando (desintegrando) e é quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo; quando todos os limites se dissolverão.
Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o Ego, a identidade. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro de consciência verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto.

Se você for medroso e novamente cair no Ego, no modelo anterior no qual foi condicionado e, novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas.

Até mesmo o fato de ser infeliz lhe dá a sensação de “eu sou” e é por essa razão que muitos se apegam a continuar no esquema de ser infeliz.

Afastando-se do que é conhecido, afastando-se das informações tidas como verdadeiras e das crenças limitantes, o medo toma conta; você começa sentir medo da escuridão (do que desconhece) e do caos, da falta dos limites que põe ordem na sua clareira e, isso porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte de seu ser. É o mesmo que penetrar numa floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado (limites psícológicos), você faz uma pequena cabana (limites fisicos de segurança quando inconsciente); você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem (somatória do que é agradável). Além de sua cerca – a floresta, a selva, os outros, suas intenções e atitudes. Mas aqui dentro tudo está bem: você planejou tudo e acreditou. A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente, e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso. Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que ali você possa se sentir em casa.
E então você passa a sentir medo, pois além da cerca existe perigo. Além da cerca você é, tal como você é dentro da cerca – e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o seu centro de consciência verdadeiro, o Eu verdadeiro está oculto.

Precisamos ser ousados, corajosos. Precisamos dar um passo para o desconhecido sem se preocupar com o Ego dos outros. Podemos ter um Eu Justo sendo Hábil e prudente, mas de vez em quando ser rebelde em relação aos padrões que são considerados normais pela sociedade, percebendo e entendendo as reações dos demais. De início, por um certo tempo, todos os limite implantados anteriormente ficarão perdidos. Por um certo tempo, você vai se sentir atordoado (Brain Storm). Por um certo tempo, você vai se sentir amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto, mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não voltar a cair no ego, se for sempre em frente, existe um centro de consciência oculto dentro de você, um centro de consciência que você tem carregado por muitas vidas. Esse centro é a sua alma, o Eu.

Uma vez que você se aproxime dele, do seu Eu, tudo pode mudar, tudo pode voltar a assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela Sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos, nasce uma nova ordem. Mas essa não é a ordem da sociedade – essa é a própria ordem da existência.

É o que Buda chama de Dharma, Lao Tzu chama de Tao, Heráclito chama de Logos. Não é feita pelo homem. É a própria ordem da existência que aflora. Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela 1ª vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas. O Ego tem uma certa qualidade: a de que ele é morto. Ele é plásmado e é muito fácil obtê-lo, porque os outros o dão a você. Você não precisa procurar por ele; pelo menos essa busca não é necessária. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do Eu Maior desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente mais um na multidão. Você é apenas um a mais na turba. Se você não tem um centro de consciência autêntico e desperto, o Eu, como pode ser um indivíduo? Você continua um sujeito.

O ego não é individual. O ego é um fenômeno social – ele é fruto da sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o Eu, e é por isso que você pode ser infeliz. Como você pode ser feliz com uma vida que plamaram em você? Como você pode estar em êxtase ser bem-aventurado com uma vida falsa usando a(s) persona(s)?

Esse ego cria muitos tormentos. O ego é o inferno pessoal. Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o seu Ego é a causa do sofrimento. E o ego segue encontrando motivos para sofrer se isso lhe dá a impressão de "eu existo".

E assim as pessoas se tornam dependentes, umas das outras. É uma profunda escravidão em nível psicológico. O ego tem que ser um escravo. Ele depende dos outros. E somente uma pessoa que não tenha ego é, pela 1ª vez, um mestre; ele deixa de ser um escravo.

Tente entender essa situação e, comece a procurar o seu ego, ou, seus padrões e valores egóicos estabelecidos – não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você. Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, e você sempre descobrirá que o falso centro de consciência entrou em choque com alguém, ou, muitos 'alguém'.

Quando você esperava algo e isso não aconteceu, qua
ndo você espera algo e justamente o contrário aconteceu – seu ego fica estremecido e, você fica infeliz. Sempre que estiver infeliz tente descobrir a razão em você. As causas não estão fora de você.

A causa básica da sua infelicidade está dentro de você – mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta: ‘Quem está me tornando infeliz?’ ‘Quem está causando a minha raiva?’ ‘Quem está causando a minha angústia?’

Se você olhar para fora, você não perceberá o seu conteúdo distorcido. Simplesmente feche os olhos e sempre olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, da raiva e da angústia, está oculta dentro de você e, é o seu Ego Inflado.

E se você encontrar a origem interna de suas fustrações, será fácil ir além delas. Se você puder ver que é o seu próprio Ego baseado em padrões e valores próprios que lhe causam problemas, você vai preferir abandoná-los – porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido. Possivelmente esta seja a razão do Senhor Jesus afirmar que é preciso mudar padrões e valores, repetindo o que está na base da Filosofia Huna, é preciso se converter.

Mas lembre-se, não há necessidade de abandonar o Ego de imediato. Você não o pode abandonar e, se você tentar abandoná-lo, simplesmente estará conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: ‘tornei-me humilde’.

Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem de toda miséria pessoal tem que ser entendida como a origem da própria miséria – então ela simplesmente desaparece. Quando você sabe que ele, o Ego, é o veneno, ele desaparece. Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece, quando você sabe que esse é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: ‘eu abandonei o ego’. Você simplesmente irá rir de toda essa história, dessa piada, pois você era o criador de toda essa infelicidade…

É difícil ver o próprio ego e, é muito fácil ver o ego nos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.
Tente ver o seu próprio ego e depois o seu próprio Eu. Simplesmente o observe, não tenha pressa em abandoná-lo e, simplesmente o observe. Quanto mais você observa, mais capaz você se torna. De repente, um dia, você simplesmente percebe que ele, o Ego, desapareceu. E quando ele desaparece por si mesmo, somente então ele realmente desaparece. Porque não existe outra maneira. Você não pode abandoná-lo antes do tempo. Ele cai exatamente como uma folha seca.

Quando você estiver amadurecido através da compreensão, da consciência, e tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade na medida em que voce continue a não conviver com as incertezas, um dia você simplesmente vê a folha seca caindo… e então o verdadeiro centro de consciência surge pelo seu brilho, pela sua luz que mostra que os demais que vendem certezas são apenas Egos Inflados. O erro subsequente está em querer emprestada a sua luz, mesmo que seja a de uma vela para os demais que, estão presos cada qual pelo seu próprio Ego. Fique na sua.

E esse centro verdadeiro é a alma, o Eu, o deus, a verdade, ou como quiser chamá-lo. Você pode lhe dar qualquer nome, aquele que preferir, pois, de acordo com o Salmo 82: 6 e 7, sois deuses, mas como homens morrereis.
OSHO

Além das Fronteiras da Mente. Centro de Atividades e Estudo Pitágoras
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